O que os municípios de Timbaúba dos Batistas, Carnaúba dos Dantas, Santana do
Seridó e Ipueira têm em comum além da localização geográfica e do pequeno número
de moradores? Os quatro estão no topo da lista de cidades potiguares com menor
grau de extrema pobreza. O ranking foi elaborado com base nos dados de renda
familiar do Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE). Em Timbaúba, os recenseadores apontaram apenas 92 moradores com renda
familiar abaixo de R$ 70, ou seja, pessoas que sobrevivem com apenas R$ 2,30 por
dia.
Entre os dez
municípios com menor índice de pobreza, sete são do Seridó. "Isso mostra
que o combate à miséria não depende de projetos mirabolantes. A região do Seridó há muito não recebe
grandes projetos desenvolvimentistas. No entanto, tem os melhores índices
de desenvolvimento humano", diz o economista Aldemir Freire, chefe da Unidade
Estadual do IBGE no Rio Grande do Norte. O menor porcentual de pobreza foi
verificado na cidade de Timbaúba dos Batistas.
Outra fonte de renda vem
das aposentadorias da Previdência Social. O sustento as famílias tiram do que
colhem nas lavouras. Nos últimos anos, dois problemas empurraram a economia
municipal para baixo: a irregularidade do inverno e o pagamento de empréstimos
consignados, uma praga que levou os aposentados ao endividamento.
Localizada em cima de uma serra, João Dias enfrentou secas e inverno
acima do normal nos últimos anos. Nos dois casos, a agricultura de subsistência
foi prejudicada com o mesmo rigor.
Atraídos por juros baixos, dinheiro
farto e ofertas tentadoras, os aposentados carregaram nos empréstimos. Hoje,
enfrentam a ressaca pagamento das parcelas com juros acertadas com os bancos e
financeiras.
Em função disso, o peso da assistência social aumentou. A
prefeitura é quem praticamente banca tudo: do medicamento para jovens, idosos e
crianças, até transporte para deslocamento de estudantes e também de pacientes
para as cidades-polo da região e até Natal, a mais de 300 quilômetros de
distância. "Temos uma despesa alta com medicamentos", afirma a secretária de
Administração, Maria de Fátima Brito. As obras da prefeitura em parceria com o
governo federal são um alento. No município estão sendo construídos um estádio
de futebol, casas populares e uma área de lazer.
Barragem
Localizado na zona gravitacional de Mossoró, o município de Upanema tem grande
potencial de desenvolvimento. No início da década passada, o governo do Estado
construiu um imenso reservatório para represar as águas dos rios. A Barragem de
Umari tem capacidade para 300 milhões de metros cúbicos. Mas o projeto de
construir um eldorado da agricultura irrigada ficou no papel. Na área da
barragem existem hoje pequenos criadouros de alevinos. Sem acessos pavimentados,
Upanema é um ilha na divisa das regiões Oeste e Central. A população espera, há
mais de 25 anos, a conclusão da BR-110, iniciada no governo do presidente José
Sarney.
No RN, quem faz o
melhor uso dos recursos hídricos é a cidade de Serra Negra do Norte, onde
o ex-prefeito Ruy Pereira construiu uma sequência de 12 barragens submersas,
possibilitando a exploração da agricultura irrigada de baixo custo. O município
produz feijão o ano todo. Em Serra Negra, o índice de pobreza é de
13,3%.
Dezoito pessoas e apenas um
salário
Ricardo Araújo -
repórter
A geladeira é nova, porém está vazia. Somente duas garrafas pet
com água preenchiam o espaço que comporta até 280 litros não só de líquido. O
aposentado Damião Domingos Cardoso, 65 anos, a adquiriu após contrair empréstimo
de R$ 3 mil junto à Caixa Econômica Federal. Além do refrigerador, ele comprou
um aparelho de som e construiu um poço artesanal para captar água para as 18
pessoas que residem na casa de taipa, com sete cômodos, erguida há mais de 40
anos nas cercanias de Ceará-Mirim. A aposentadoria, de R$ 545, reduziu para R$
384 e assim se perpetuará por mais 30 meses, até que a dívida, acrescida de
juros, seja paga. Damião é apenas uma, das 405.812 pessoas que vivem na
pobreza extrema no Rio Grande do Norte.
Além da aposentadoria recentemente concedida pelo Instituto Nacional da
Previdência Social (INSS), as demais fontes de renda da família Cardoso, se
resumem ao programa Bolsa Família, do Governo Federal. Pelos filhos que mantem
na escola, eles recebem mais R$ 166. Esta regalia, porém, corre o risco de
ser perdida, caso as três crianças em idade escolar não retomem a
frequência regular nas instituições nas quais estão matriculadas. "Eu abandonei
os estudos porque quando acordava de manhã, não tinha o que comer e eu não
conseguia aprender nada", disse José Roberto, um dos filhos de
Damião.
Somando o repasse do INSS com o do Bolsa Família, a renda
acumulada mensalmente pelos Cardoso chega a R$ 550. Dividindo-se a monta pelo
número de pessoas que dependem diretamente da verba, cada uma "dispõe" de R$
30,55. O que é insuficiente para financiar, mensalmente, a compra de alimentos,
medicamentos e roupas. Para Maria das Graças Basílio, 47 anos, esposa de Damião,
entretenimento é "uma coisa que eles não conhecem". Afinal de contas, são
"muitas bocas para alimentar e nem sempre o que tem é suficiente".
Sem
perspectivas de ampliar a renda, resta a Damião plantar parte do que alimenta a
família. "Eu planto feijão, milho, batata e melancia. Tudo é para nosso consumo.
Eu não tenho condições de comprar muitos mantimentos", lamenta. Sobre a pobreza
na qual vive, ele afirma que hoje os tempos são melhores, mesmo com tantas
dificuldades. Na panela com o fruto tingido de preto pelo carvão, cozinhava
feijão preto temperado somente com sal e algumas das hortaliças da horta do
agricultor.
"Meu filho, a gente agradece a Deus quando tem pelo menos
feijão pra comer. Mesmo que seja puro, sem mistura", dizia Maria das Graças
enquanto mexia a panela. Os três filhos mais velhos que ainda moram com os pais,
não trabalham. Fazem apenas bicos que não garantem a subsistência de nenhum
deles. Francisco de Assis, aos 30 anos, sonha no dia que poderá dizer: "sou
independente". "Eu queria poder trabalhar pra ajudar meus pais, ter minhas
coisas. Mas é tudo muito difícil", reclamava. Francisco jamais teve sua carteira
de trabalho assinada.
As lamentações acerca da situação na qual se
encontram, ecoam como se toda a família orquestrasse o mesmo discurso. "A falta
de dinheiro é triste. Quando a gente escuta um filho pedindo comida e não tem
como dar, é de partir o coração. Só conhece de verdade a miséria, quem vive
nela", ressalta Maria das Graças. Além das consequências da pobreza absoluta, a
família Cardoso enfrenta problemas de infraestrutura. Para chegarem ao povoado
de Capela, precisam de deslocar sete quilômetros a pé. As escolas e o posto de
saúde mais próximos estão na comunidade.
Além disso, os casos de
doenças provocadas pela má qualidade da água que abastece o povoado, são
recorrentes. Parte da população sofre com moléstias como verminoses e escabiose.
"Este tipo de doença ocorre devido à falta de tratamento na água que bebemos",
comenta a agente de saúde, Izabel Cristina. Mesmo diante de tanta miséria,
Damião e Graças, unidos à família, não hesitam em sonhar que dias melhores estão
por vir.
Crescimento agravou a situação
de Ceará-Mirim
O prefeito de Ceará-Mirim, Antônio Peixoto,
reconhece a situação miserável na qual vivem 10.724 habitantes do município.
Segundo ele, a cidade cresceu muito nos últimos anos, mas o crescimento não foi
acompanhado de desenvolvimento. "Nós somos a sexta maior população do Estado,
mas ocupamos a 14ª posição na arrecadação de ICMS", ressalta o prefeito.
Atualmente, Ceará-Mirim arrecada mensalmente cerca de R$ 6 milhões em impostos e
repasses federais. O valor é similar ao que Guamaré arrecada somente com o ICMS
do petróleo extraído da cidade.